Primeiro ano de vida: Crescer em liberdade

O bebé começa dentro do útero a treinar os seus movimentos. Um ambiente em que não é a gravidade que vai ao leme, mas é a água que dita o contexto da mobilidade do pequeno ser que se prepara para nascer. O bebé inicia os movimentos de sucção, preparando a sua alimentação, treina os movimentos dos membros, do tronco, da cabeça. É apaixonante assistir a uma ecografia e, como quem assiste a um filme, ver a preto e branco os movimentos do bebé, ou observar a dinâmica tão própria da barriga de uma grávida.

Chegou o grande dia. O dia de encontro com os pais, com o mundo e também com a gravidade. Tudo cá fora é diferente. No primeiro ano de vida o bebé vai passar por um conjunto de aprendizagens sensório-motoras alucinantes. O ser humano não voltará a deparar-se com um ritmo de crescimento tão rápido e uma quantidade diária de estímulos tão diferentes como no primeiro ano da sua vida.

O bebé começa por ter um período em que vive como se ainda estivesse no útero da sua mãe, mas aos poucos começa a despertar e a entrar numa sequência de aprendizagens.

A primeira grande meta é controlar a cabeça. Para tal é muito importante que, quando acordado, passe alguns períodos de barriguinha para baixo (tummy time). O período que passa nesta posição é definido pela tolerância do bebé. No início bastarão uns breves segundos após cada muda de fraldas, mas aos poucos estes momentos serão naturalmente mais longos. O tummy time é para fazer acompanhado, em interação com o cuidador. Os bebés precisam do calor humano, do toque, do som da voz, nestas aprendizagens exigentes.

Na sequência do controle da cabeça surge o rolar, o movimento que lhe permite passar da posição de barriga para baixo para a posição de barriga para cima e o inverso. É muito importante que exista em casa um tapete grande, confortável sem ser muito mole, para que o bebé possa em segurança treinar as suas habilidades de croquete. Um bebé que passe muito tempo numa espreguiçadeira, num ovinho, ou noutro objeto que lhe limite os movimentos, que o confine a um espaço restrito, não terá a possibilidade de treinar esta competência.

Entre os seis a oito meses o bebé tende a conseguir ficar sentado, embora ainda não consiga passar para a posição de sentado, ou sair dela, sozinho. Neste caso, sentá-lo é uma forma de o imobilizar, condicionando-o a uma posição da qual não pode sair sem ajuda. Mais do que passar grandes períodos sentado, o bebé precisa de estar deitado para aprender a rastejar, a gatinhar, a assumir a posição de sentado sozinho. E é o desejo de sair do chão, olhar o mundo de uma posição mais alta, de chegar aos objetos que tanto interesse lhe despertam que o vai fazer treinar horas e horas, apaixonado pelas suas novas capacidades. Vale a pena ganhar tempo a apreciar o ar deliciado com que observa as suas mãos, cada dedo, e depois como tenta comer toda a mão numa tentativa de a perceber.

Gatinhar não é um marco obrigatório, mas é muito importante para o desenvolvimento motor, para a postura, para a criação de pontes entre os dois hemisférios cerebrais. Se repararem quando caminhamos, quando a nossa perna direita vai à frente, é o nosso braço esquerdo que avança (dissociação de cinturas). É com o gatinhar que começamos a treinar estes padrões motores cruzados.

E com o aproximar do momento de soprar a primeira vela começam as tentativas de se colocar em pé, e depois de se voltar a sentar. Inicia os primeiros passos agarrado aos móveis, andando de lado, até que aos poucos vai ganhando coragem, destreza e equilíbrio para dar os primeiros passos. Com tempo, sem pressa, cada um à sua velocidade, quando estiver preparado.

Segurar as duas mãos do bebé para que ande tem pouco interesse do ponto de vista da aprendizagem. Nessa fase não anda porque ainda não tem equilíbrio. Precisa de o treinar sozinho, agarrado aos objetos. Precisa de se levantar e depois sentar e depois levantar e dar um passo e largar uma mão e aceitar a dificuldade, a instabilidade que isso provoca. Há coisas que não podemos fazer por ele. Deixemos de comprar andarilhos/andadeiras. Não são seguros e promovem a marcha em pontas dos pés. Não respeitam o desenvolvimento do bebé porque se este ainda não anda é porque tem outras competências muito importantes para adquirir antes.

Neste treino o bebé conta com a ajuda dos reflexos primitivos, movimentos inatos, involuntários, que vão surgindo no útero, nascimento e ao longo do primeiro ano de vida para possibilitar as aquisições motoras e posturais. Podemos observar esses reflexos por exemplo quando o bebé se assusta,
e faz um movimento de abertura dos membros e depois se fecha sobre si (Reflexo de Moro) ou quando lhe apresentamos um dedo e o agarra com toda a força (Reflexo de preensão). Quando deixam de ser necessários estes reflexos são integrados, desaparecem. Alguns reflexos específicos ficam latentes, disponíveis para emergir sempre que forem necessários. Podemos observar os bebés muitas vezes em movimentos rítmicos, repetidos, estão a treinar as suas habilidades e vão integrando estes reflexos primários.

Procuremos reduzir ao máximo o uso de objetos que limitam a mobilidade do bebé, que o impede de explorar, que lhe reduzem o campo visual. Um bebé que cresce em liberdade terá seguramente um desenvolvimento sensório-motor mais harmonioso, tendendo a tornar-se uma criança mais coordenada, equilibrada, posturalmente mais evoluída.

Em alguns casos, devido às suas circunstâncias de chegada ao mundo (gravidez, parto, genética, …) o bebé pode ter algumas dificuldades no seu desenvolvimento e precisar de ajuda de um fisioterapeuta ou de um osteopata para lhe libertar tensões, dar mobilidade/elasticidade a estruturas que dela carecem.

No entanto é importante não esquecer que há momentos para tudo. Momentos para dormir, momentos de colinho (por exemplo com babywearing) e momentos para brincar, para explorar no mundo.
O primeiro ano é irrepetível. Entre com o seu bebé nesta aventura e ajude-o a crescer saudável e em liberdade.

Publicado na revista Crescer:https://www.crescercontigo.pt/primeiro-ano-vida-crescer-liberdade/

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